terça-feira, 18 de outubro de 2011

SÉRIE: O ESPÍRITO DE ESCRAVIDÃO - PARTE 1


Por D. M. Lloyd Jones


"Porque não recebestes o espírito de escravidão para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados". Romanos 8:15-17

Palavras mais expressivas do que estas jamais foram escritas. Elas se sobressaem mesmo num grande capítulo como este, como uma expressão de verdade que é absolutamente única. É uma das declarações mais magníficas encontradas em todas as Escrituras, contudo não há nada mais importante sobre uma declaração como esta, do que compreender exatamente por que o apóstolo a fez. O perigo a respeito de certas frases impressionantes é que temos a tendência de nos contentar com as palavras, ou com uma impressão geral que elas exercem sobre nós; gostamos tanto delas que às vezes não compreendemos seu significado, e portanto não nos apropriamos verdadeiramente do ensino que elas visam nos transmitir.

Considerem esta grande afirmação. Por que Paulo a fez, qual era seu objetivo, qual foi sua razão para pronunciar estas palavras? A resposta nos é dada no versículo quinze: "Porque", diz o apóstolo, "não recebestes o espírito de escravidão para outra vez estardes em temor". Em outras palavras, a declaração está ligada a algo que foi dito antes, e o apóstolo tem um objetivo muito definido ao escrever estas palavras: ele está ansioso por livrar estes cristãos romanos de um espírito de desencorajamento — de um espírito de abatimento ou depressão. talvez eles estivessem realmente sofrendo disso no momento, mas mesmo que não estivessem, ele quer se certificar de que não venham a sofrer disso, e seu alvo é prover um antídoto contra a depressão, contra esse espírito de escravidão, esse espírito de derrota, esse espírito de desencorajamento que, como já vimos, está sempre nos ameaçando em nossa vida cristã.

O apóstolo não faz uma declaração tão magnífica sem um contexto, não é apenas uma verdade maravilhosa emitida subitamente. Ela aparece — como tais declarações quase invariavelmente surgem nos escritos do grande apóstolo — num momento em que ele está tratando de um problema bem prático. Estas epístolas que temos no Novo Testamento estão repletas de doutrina e teologia, e no entanto seria errado dizer que a coleção de epístolas do Novo Testamento é um compêndio de teologia. Não é. O fato estupendo é este, e é importante mantê-lo em mente, essas declarações e doutrinas sempre são apresentadas com algum objetivo prático em vista, e com o elemento pastoral sempre em proeminência. Estas epístolas são cartas pastorais escritas principalmente porque o apóstolo se preocupava em ajudar as pessoas a alcançar real alegria e vitória na fé cristã, a qual haviam aceito e crido.

Portanto, é imprescindível observar exatamente como ele veio a fazer esta declaração. Qual era a causa de desânimo nesta situação? Nada menos que o problema de viver a vida cristã, o problema, se preferir, de tratar com o pecado. Paulo começou a tratar desse problema no início do sexto capítulo desta grande epístola, e ainda está tratando dele aqui. As pessoas a quem ele está escrevendo tinham sido convertidas e creram no Senhor Jesus Cristo, mas agora estão enfrentando o problema de viver esta nova vida que receberam, num mundo que as antagoniza e que se opõe inteiramente a elas. Também têm de vivê-la em face de certas coisas que encontram em sua própria natureza. É uma luta, é uma batalha; há pecado do lado de fora, e há pecado por dentro, e aqui temos pessoas que querem seguir o Senhor Jesus Cristo e viver da forma como Ele viveu neste mundo. E muitas vezes é quando enfrentamos essa questão e esse problema que o desânimo e a depressão tendem a surgir. Já consideramos muitos exemplos dos vários meios que o diabo, em sua sutileza, usa para nos desencorajar. Este, novamente, é um meio muito comum, especialmente quando a pessoa é conscienciosa, e leva muito a sério a fé cristã, o tipo de pessoa que não diz: "Agora sou convertido, e tudo está bem", mas aquela que diz: 'Esta é uma vida extraordinária e gloriosa, e devo vivê-la". Estamos considerando aqui a tentação peculiar que assedia tais pessoas.

Qual é a essência deste problema? É que elas falham em compreender certas verdades em relação à vida cristã, falham em compreender o que é possível para nós, como cristãos. Em última análise, é uma falha em entender doutrina ou, se preferirem, é em última análise mais um fracasso no domínio da fé. Vimos uma série de coisas com respeito à fé: vimos, por exemplo, que ela deve ser ativa. Muitas pessoas se esquecem disso, e acabam tendo problemas, porque não compreendem que devem colocar sua fé em ação. Então vimos que outros têm problemas porque não percebem que devem continuar e persistir na aplicação da fé, que não basta começar bem, porém que precisamos prosseguir, e não podemos relaxar nem por um momento.

Mas aqui o problema parece ser um fracasso em compreender que a fé deve ser apropriada, que devemos tomar posse dela. Aqui está a verdade colocada diante de nós, mas se não tomarmos posse dela, ela não nos será útil. A falha em compreender isso é uma das coisas mais incríveis sobre o homem, como resultado do pecado. Todos já devemos ter percebido isso. Acaso já se acharam lendo uma passagem das Escrituras que haviam lido muitas vezes antes, e pensavam conhecer bem, e de repente ela se torna viva e fala com vocês de uma forma que nunca fez antes? Todos por certo tivemos esse tipo de experiência muitas vezes. Como é fácil ler as Escrituras e dar uma espécie de assentimento formal à verdade, sem nunca nos apropriarmos do que ela está dizendo!

Creio que essa é a essência deste problema específico que estamos considerando aqui, pois sempre tende a produzir o que o apóstolo chama de "espírito de escravidão" — "não recebestes o espírito de escravidão para outra vez estardes em temor". O que ele quer dizer com "espírito de escravidão"? Ele está falando do perigo de ter um "espírito de servo", um espírito e uma atitude de escravo. A atitude de escravo em geral surge de uma tendência de tornar a vida cristã, ou o viver a vida cristã, numa nova lei, numa lei mais alta, superior.

Estou pensando em pessoas que estão bem esclarecidas em seu relacionamento com a lei — os Dez Mandamentos, ou a lei moral — como um caminho de salvação. Viram claramente que Cristo as libertou disso, e que somente Ele poderia fazer isso; sabem que seus próprios esforços jamais as capacitaram a cumprir a lei. Entendem que Cristo nos libertou da maldição da lei; não têm qualquer dúvida quanto à sua justificação. Entretanto, agora começam a olhar positivamente para a vida cristã, e de uma forma muito sutil — sem ter qualquer consciência disso — tornam-na num novo tipo de lei, e como resultado caem num espírito de escravidão e de cativeiro.

Pensam na vida cristã como uma grande tarefa a que têm que se empenhar, e à qual devem se dedicar. Leram o Sermão do Monte e compreendem que é um retrato da vida cristã, a vida que desejam viver. Voltam-se para outros ensinamentos do Senhor registrados nos Evangelhos, e vêem a mesma coisa. Então examinam as Epístolas, e lêem aquelas instruções minuciosas dadas pelos apóstolos, e dizem: "Essa é a vida cristã". E tendo chegado a essa conclusão, consideram-na algo que deve ser assumido e colocado em prática em suas vidas diárias. Em outras palavras, santidade se torna uma pesada tarefa para elas, e começam a planejar e organizar suas vidas e a incluir certas disciplinas que as capacitem a prosseguir. Esta atitude pode ser vista, de forma clássica, na igreja católica romana e em seus ensinos, em toda a idéia do monasticismo, que é nada mais do que uma grande expressão disto que estamos considerando. Vemos ali homens e mulheres que, sendo confrontados pela verdade cristã, dizem: "Obviamente, a vida cristã é uma vida nobre e sublime, e se alguém vai vivê-la com sucesso, deve se dedicar integralmente a isso". Indo ainda mais longe, dizem: "Não se pode fazer isso, e ainda continuar exercendo uma profissão, ou mesmo continuar vivendo no mundo. É preciso segregar-se do mundo, abandoná-lo completamente". E fazem isso. Essa é a forma extrema dessa idéia de santidade, de que cultivar santidade e a vida espiritual é uma ocupação de tempo integral, e que é necessário devotar-se a ela exclusivamente, e ter regulamentos e outras coisas para ser capaz de vivê-la.


Continua...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

SÉRIE FOME POR DEUS - PARTE 3 - O JEJUM


Por Hernandes Dias Lopes

As escrituras enfatizam também o jejum como um importante exercício espiritual. Se desejarmos pregar com poder, o jejum não pode ser esquecido em nossa vida devocional. O jejum está presente tanto no Antigo como no Novo Testamento. Os profetas, os apóstolos, Jesus e muitos homens de Deus como Agostinho, Lutero, Calvino, John Knox, Wesley, Charles Finney, Moody e outros mais através da história, experimentaram bênçãos espirituais através do jejum. Erroll Hulse citando Martyn Lloyd Jones diz que “os santos de deus em todos os tempos e em todos os lugares não somente creram no jejum, mas também o praticaram”.

Há um apetite por Deus em nossas almas. Deus colocou a eternidade em nossos corações e somente Ele pode satisfazer essa nossa necessidade. Se você não sente fortes desejos pela manifestação da glória de Deus, não é porque você tem bebido profundamente dos mananciais da Deus e está satisfeito. Pelo contrário, é porque você tem buscado saciar a sua alma nos banquetes do mundo.

John Piper define jejum como fome de Deus. De acordo com Piper, o maior inimigo da fome de Deus não é o veneno mortífero, mas uma torta de maçã. O maior adversário do amor de Deus não são seus inimigos, mas seus dons. E os mais mortíferos apetites não são pelos venenos do mal, mas pelos simples prazeres da terra (Lc 8.14; Mc 4.19). “Os prazeres desta vida” e os “desejos por outras coisas” não são mal em si mesmos. Não são vícios. São dons de Deus. Mas todos eles podem tornar-se substitutos mortíferos do próprio deus em nossas vidas. O jejum revela o grau de domínio que o alimento tem sobre nós. O jejum cristão é um teste para conhecermos qual é o desejo que nos controla. Richard Foster afirma:

Mais do que qualquer outra disciplina, o jejum revela as coisas que nos controlam. O jejum é um maravilhoso benefício para o verdadeiro discípulo que deseja ser transformado na imagem de Jesus Cristo. Muitas vezes encobrimos o que está dentro de nós com comida e outras coisas.

Martyn Lloyd Jones, na mesma linha de pensamento, ensina que o jejum não pode ser entendido apenas como uma abstinência de alimento e bebida. Segundo ele, o jejum também deve incluir abstinência de qualquer coisa que é legítima em si mesma por amor de algum propósito espiritual.

O propósito de jejum NÃO é obter o favor de Deus ou mudar a sua vontade (Is 58.1-12). Também não é para impressionar os outros com uma espiritualidade farisaica (Mc 6.16-18). Nem é para proclamar a nossa própria espiritualidade diante dos homens. Jejum significa amor a Deus. Jejuar para ser admirado pelos homens é uma errada motivação para fazê-lo. Jejum é fome pelo próprio Deus e não fome por aplausos humanos (Lc 18.12). É para nos humilharmos diante da Deus (Dn 10.1-12), para suplicarmos a Sua ajuda (2 Cr 20.3; Es 4.16) e para retornarmo-nos para Deus com todo o nosso coração (Jl 2.12-12). É para reconhecermos a nossa total dependência da proteção divina (Es 8.21-23). O jejum é um instrumento para fortalecer-nos com poder divino, em face dos ataques do inferno (Mc 9.28-29).

Deus tem realizado grandes intervenções na história através da oração e do jejum de seu povo. Quando deu a lei para o seu povo, Moisés dedicou quarenta dias a oração e ao jejum no monte Sinai. Deus libertou Josafá das mãos dos seus inimigos quando ele e seu povo humilharam-se diante do Senhor em oração e jejum (2 Cr 20.3- 4, 14-15, 20-21). Deus libertou o seu povo da morte através da oração e jejum da rainha Ester e do povo judeu (Es 4.16). Deus usou Neemias para restaurar Jerusalém quando este orou e jejuou (Ne 1.4). Deus usou Paulo e Barnabé para plantar igrejas no Império Romano quando eles devotavam-se à oração e ao jejum (At 13.1-4).

John Piper comenta que a oração e jejum resultaram num movimento de missões que arrancou o cristianismo da obscuridade para ser a religião dominante do Império Romano em dois séculos e meio, e hoje calcula-se que temos cerca de um bilhão e trezentos milhões de seguidores da religião cristã, com cristãos testemunhando em todos os países do mundo. Infelizmente, o jejum é um grande tesouro espiritual negligenciado pelos cristãos contemporâneos.

Os homens têm amado os dons de Deus mais do que o próprio Deus. Eles tem mais fome dos dons de Deus do que de Deus. Jejum não é fome das bênçãos de Deus, mas é fome do próprio Deus. John Piper diz que o jejum cristão, nasce exatamente da saudade de Deus. Ele escreve:

“Nós glorificamos a Deus quando o preferimos acima dos seus dons... Nós nos enganamos ao dizermos que amamos a Deus, mas se somos testados revelamos o nosso amor apenas por palavras e não por sacrifício... Eu realmente tenho fome de Deus? Realmente tenho saudade de deus? Ou estou satisfeito apenas com os dons de Deus?”

Devemos comer e jejuar para glória de deus (I Co 10.31). Quando nós comemos, saboreamos o emblema do nosso alimento celestial, o Pão da Vida. E quando jejuamos, dizemos, “eu amo a realidade acima do emblema”. O alimento é bom, mas Deus é melhor. “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Jesus disse, “tenho algo para comer que vocês não conhecem” (Jo 4.32). Em Samaria, Jesus satisfez sua vida não com o pão da terra, mas com o pão do céu. Deus mesmo foi o seu alimento. Isto é jejum: intimidade com Deus. A comunhão com Deus deve ser a nossa mais urgente a apetitosa refeição.

John Piper sintetiza esta gloriosa realidade assim:

“Quanto mais profundamente você anda com Cristo, mais faminto você se torna dEle... mais saudade você tem do céu... mais deseja a plenitude de deus em sua vida... mais anseia pela vinda do noivo... mais aspira que a igreja seja reavivada e revestida com a beleza de Jesus. Mais você anseia por um profundo despertamento da realidade de Deus em nossas cidades... mais deseja ver a luz do evangelho da glória de cristo penetrar nas trevas dos povos ainda não alcançados... mais deseja ver as falsas filosofias do mundo sendo vencidas pela verdade... mais deseja ver a dor sendo vencida, as lágrimas enxugadas e a morte destruída... mais anseia ver as coisas erradas sendo feitas corretamente e a justiça e a graça de Deus enchendo a terra como as águas cobrem o mar”.

Nós vivemos em uma geração cujo deus é o estômago (Fl 3.19). Muitas pessoas deleitam-se apenas nas bênçãos de Deus e não no Deus das bênçãos. O homem tem se tornado o centro de todas as coisas. Todas as coisas são feitas e preparadas para o prazer do homem. Mas o homem não é o centro do universo, Deus é. Todas as coisas devem ser feitas para a glória de Deus. Deus deve ser a nossa maior satisfação. Quem jejua tem mais fome do pão do céu do que o pão da terra. Quem jejua tem mais saudade do Pai do que de suas bênçãos. Quem jejua confia mais no poder que vem do céu do que nos recursos da terra. Quem jejua confia mais nos recursos de deus do que na sabedoria humana. Verdadeiramente, se desejamos ver poder no púlpito, se desejamos ver pregações ungidas e cheias de vigor, se ansiamos ver o despertamento da igreja e o seu crescimento numérico, precisamos, então, de pregadores que sejam homens santos e piedosos, homens de oração e jejum.


Retirado do livro "Piedade e Paixão".